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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

que venha 2014


não aguento texto que começa com: último dia do ano; fim do ano; o ano acabou...todo mundo sabe que hoje é dia 31. mas como é clichê, praxe, e faz parte, vamos lá: último dia do ano. dia de fazer um pequeno balanço do que se foi.
é sabido que nada vai mudar amanhã. absolutamente nada. o que pode mudar é você. se você não mudar, não vai adiantar nada chegar um ano novo. mas como o assunto da vez são os fins e recomeços, vou aproveitar pra rever o que passou. e como gosto de listas. lá vão algumas :
p.s - minhas listas são sempre com 7 itens.

COISAS RUINS EM 2013:

1 - não engravidei
2 - não emagreci
3 - não ganhei aumento salarial
4 - não troquei meu sofá
5 - continuei bagunceira
6 - viajei pouco
7 - meu papai ficou doente duas vezes

COISAS BOAS EM 2013:

1- shows do the cure e withesnake
2- conheci pessoas maravilhosas e estreitei laços com as mais antigas
3- madame red bombando
4- participação em vários livros
5- publicação de poema no correio braziliense
6- concorri a prêmios de jornalismo
7- convites para escrever em vários blogs

em geral, foi um ano bom. desgastante, mas bom.
a todos que me amam, aos que me odeiam, aos que me fazem crescer, obrigada.
um beijo e que venha 2014.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

CONTO NO FANZINE: GRÁTIS

Fanzine 36 - Adorável Noite - Contos de Vampiros e Terror - download gratuito

TEM CONTO MEU. A CHAVE.



Baixe o fanzine gratuitamente neste link:
http://www.overmundo.com.br/banco/fanzine-adoravel-noite-36

Fanzine Adorável Noite 36, dezembro 2013.
Nesta edição temos a participação dos seguintes autores abaixo:

Noturno
Denny Guinevere

Desejos Mortais
Adriano Siqueira

Um vampiro na praia
Hélio Flávio

A CHAVE
Andrea Carvalho


A joia da Condessa
Por: Patrícia Carla dos Santos

Encontro com a Vampira
Adriano Siqueira

Foto da Capa: Fabiana Ferreira - Hope Oleander

Obrigado pela colaboração, logo o fanzine estará disponível para download.

tenham uma Adorável Noite.
ttp://contosdevampiroseterror.blogspot.com.br/2013/12/fanzine-36-adoravel-noite-contos-de.html

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

SEXTA-FEIRA 13 E DAI?




amanhã é sexta-feira 13. nada vai mudar na sua vida. mas que há um monte de crenças por ai, há. e como é mesmo que começou essa história de sexta-feira 13 ser um dia maldito? 
começa com o número 13 que ganhou um certo status de lazarento por conta de várias superstições. diz que eram 13 apóstolos na última ceia, e o 13º seria judas, que traiu jesus. 
na roma antiga, as bruxas se juntavam em grupos de 12 - pois o 13º era o demônio. 
quer mais sobre o número 13? de acordo com a wikipedia, na numerologia o 12 é considerado de algo completo: 12 meses do ano, 12 tribos de israel, 12 apóstolos de jesus, 12 signos do zodíaco, 12 horas no relógio. já o 13 é uma transgressão e sinal de infortúnio e azar. 
no tarô o 13 significa morte. 
nunca se convidam 13 pessoas pra um jantar, na frança chegam a contratar o 14º convidado.
nos estados unidos muitos hotéis não possuem o 13º andar e dizem que na inglaterra os condenados davam 13 passos até chegar ao local onde iam ser enforcados. e adivinha qual era o dia das execuções oficiais? na sexta-feira! 
segundo a revista "national geographic" em 2004, olha que absurdo, quase U$ 900 milhões de dólares foram perdidos nas sextas-feiras 13 porque as pessoas se recusam a fazer negócios nessa data. 
e as superstições não param: existem histórias muito anteriores a cristo, como por exemplo na mitologia nórdica (agora que o thor e o loki estão na moda, fica fácil, qualquer um entende. obrigada vingadores!) que conta que houve um banquete e 12 deuses foram convidados. o loki, aquele do mal meio louquinho (sacaram o nome? loke, louco?), que muitos descrevem como espírito da discórdia, ou deus da travessura, apareceu sem ser convidado. seria o 13° conviva. chegou e armou um barraco. balder (filho de odin), conhecido como sendo um dos deuses favoritos, considerado deus da luz, o mais belo dos deuses, morreu na confusão (o loki fez uma fofoca enorme e o irmão hoder, deus da guerra, matou balder). 
outra versão é que a deusa do amor, da fertilidade e da beleza, esposa de odin e madrasta do thor, frigga (que deu origem a frigadag, friday, sexta-feira...ó já a ligação ai ó) foi transformada em bruxa quando as tribos nórdicas se converteram ao cristianismo. ai como vingança ela passou a se reunir todas as sextas-feiras com outras 11 bruxas e o demônio e os 13 ficavam rogando pragas aos humanos. enfim, a mitologia é grande mas sobre o número 13 seria isso. 
e a sexta-feira, o que tem de ruim? além de ser o dia da reunião da tal frigga lá da mitologia nórdica, católicos acreditam que a crucificação de jesus foi numa sexta-feira (a sexta-feira da paixão taí, né?) também há teólogos que especulam que o tal dilúvio da bíblia, aquele do noé começou numa sexta. foi o suficiente pros marinheiros da europa se borrarem de medo. eles simplesmente acreditaram que seria um dia de azar e pararam de zarpar nas sextas-feiras. 
seguindo ainda na linha do cristianismo, conta-se que em 13 de outubro de 1307 uma sexta-feira, o rei felipe iv da frança decretou que a ordem dos templários era ilegal. foi assim: diz que ele se cagava de pânico do poder e da influência da igreja dentro do reinado dele, pra agradar padres e troianos, ele tentou se filiar a ordem religiosa dos templários, mas os cavaleiros recusaram o fofo e ele ficou uma fera. mandou torturar e executar todos os templários do país, acusados de heresia. e a coitada da sexta ganhou fama de ser maldita. bom, se juntar a sexta-feira com o 13 ai vira filme de terror dos anos 80 (quem não conhece a musiquinha? quem não ficou se tremendo de medo do jason, aquele da máscara, do lago, lembram?), vira debate, vira até assunto em blog. se você pesquisar na internet vai encontrar coisas como: " O império asteca acabou quando hernan cortés capturou o rei de tenochtitlán, em 13 de agosto de 1521, uma sexta-feira". 
e você sabia que tem gente que tem tanto medo da data que é doente? o nome da fobia de quem tem medo de sexta-feira 13 é parascavedecatriafobia (tenta dizer isso rápido 3 vezes seguidas) ou frigatriscaidecafobia (ah tá, ficou mais fácil, né? ¬¬). 
são muitas as curiosidades que não servem pra nada. o único porém na data de amanhã é que existem uns ignorantes que consideram a sexta-feira 13 coisa do demônio, outros têm religiões estranhas e acabam maltratando gatos pretos. o ser humano é nojento e cria superstições desde o primeiro suspiro da história, assim surgem datas e crenças. é normal. o que não dá pra engolir é que se faça mal aos bichinhos que não tem nada a ver com isso. e um alerta, se você tem gatinho preto, cuide pra ele não sair de casa amanhã. nunca se sabe...fique de olho e denuncie!!!! 


a ignorância humana cria verdades absurdas 









domingo, 8 de dezembro de 2013

O MISTERIOSO CASO DA MENINA QUE DESAPARECEU




Minha querida Florence** escrevo com a intenção de lhe pedir uma visita. Sei de suas andanças pelo exterior, que sua vida está muito ocupada, mas preciso, aliás, precisamos, eu e meus vizinhos, de todo o seu conhecimento. A propósito devo dizer que "devorei" seu livro, parabéns, você realmente é genial. Estão lhe chamando elogiosamente de "o pesadelo dos fantasmas". Você merece todas as honras. Sabemos que você desenvolveu técnicas assustadoramente eficientes de dedução e lógica para descobrir fraudes de pessoas mal intencionadas que tentam enganar quem acredita em coisas do além. Justamente essa sua capacidade de desvendar fenômenos paranormais se tornou nossa última esperança.

Minha cara, só você pode nos ajudar. Confirmei sua vocação por um senhor muito agradecido que, cordial e espontaneamente, me contou que você conseguiu desvendar o mistério dos meninos que andavam assombrados naquele orfanato. Detalhou que você descobriu a tramoia e o esquema todo do golpe que a cozinheira e o jardineiro queriam aplicar nos donos da casa onde funcionava o abrigo para os órfãos. Então, minha querida amiga, o quanto antes você puder vir ajudar a desvendar mais um mistério, muito ficarei agradecida.

O fato se dá na cidadela onde minha ex-cunhada mora...lembra dela? A espevitada Vanusa? Aquela que tinha uma mania horrorosa de se meter na vida alheia? Pois veio dela a notícia de que uma moça de nome Antônia desapareceu. Antônia é muda e mora em um casebre pobre no final da rua da Vanusa.
Antônia vivia com outros seis irmãos, cada um com um problema de saúde pior que o outro. Ela criou todos sozinha, mesmo muda e analfabeta. Pobre garota. Nunca consegui imaginar o tamanho do sofrimento de ficar órfã aos 16 anos e tomar para si a responsabilidade de criar os irmãos. Mas ela lutou muito e se mantinha relativamente bem até alguns dias atrás.

Na verdade ela não é a primeira a sumir. Pelos meus cálculos já seria a décima terceira mulher desaparecida. Quer dizer, desde que começamos a prestar atenção, pode ter mais. O sumiço de Antônia só foi percebido porque todos sabem da dificuldade daquela família e muitos ajudam como podem, levando alguma muda de roupa, ou comida. Alguns até tentam se aproveitar da pobreza e necessidade da menina fazendo as mais indecorosas propostas. Mas nunca se soube de ela ter aceito prestar serviços, digamos, ortodoxos, para conseguir criar os menores. Nunca se falou nada sobre a garota se prostituir, ou se meter em confusão com drogas e afins. Tomei conhecimento que certa vez o homem que comanda o jogo clandestino na cidadela se interessou em levar a menina pra casa dele, sem pagar salário, numa espécie de apadrinhamento, onde ela prestaria serviços domésticos e eventuais serviços sexuais, com a condição de deixar os irmãos a cargo do Conselho Tutelar. Dizem que ela teria expulsado o homem de dentro do barraco proferindo guinchos e grunhidos.

Como ia dizendo, muita gente colabora com a família, entre elas dona Matilde, que mora ao lado do casebre. Ela foi levar um frango assado para os meninos e encontrou a casa toda trancada. Bateu e ninguém atendeu. Como a casa é bastante velha, ela logo pegou um pedaço de madeira, uma tora de lenha ali de perto, e bateu tanto na parede que conseguiu fazer um buraco no material podre que sustentava a casa. Entrou por ele e encontrou tudo de cabeça para baixo. Os dois bebês menores, choravam copiosamente no berço. Andrey, o segundo mais velho, depois de Antônia, caminhava atônito de um lado para o outro com uma expressão de horror. Os outros três ficaram apenas sentados no chão olhando para a parede, como que hipnotizados de medo e susto.

Dona Matilde demorou para conseguir a atenção dos meninos. Pegou os dois menorzinhos e levou para sua própria casa onde imediatamente providenciou uma roupa para eles. Chamou a filha mais velha para olhar as crianças enquanto voltava a fim de resgatar os outros irmãos.

Levou todos para dentro do banheiro para dar um banho demorado nos meninos encardidos. O horror é que dona Matilde descobriu que eles estavam todos sujos de fuligem e sangue.

Quando a água quente bateu no corpinho deles, começou uma gritaria como se fosse água benta caindo sobre demônios. Foi como se todos deixassem um transe e se dessem conta de onde estavam. Demoraram a aceitar que dona Matilde terminasse o banho.

Minha ex-cunhada foi logo ver o que havia acontecido e quando chegou até a casa, as crianças já estavam limpas e sentadas à mesa esperando a sopa que dona Matilde esquentava no fogão à lenha. A velha estava apavorada. Contou que os meninos não diziam coisa com coisa, que falavam que a irmã tinha ido embora para sempre. Contou sobre o sangue que se espalhou pelas roupas, cabelos, mãos.

Os meninos comeram e foram deitar embalados por um cansaço quase adulto. Pobres crianças minha querida Florence. Pouco depois todos acordaram ao mesmo tempo, aos gritos, chamando pela irmã Antônia.

A polícia foi ao local e não conseguiu descobrir nada. Não há vestígios de fuga, nenhuma roupa foi levada, não há indício de sequestro. A menina é tão pobre e doente que não haveria motivos, não é mesmo? Os pequenos falavam de um monstro vestido em uma roupa de monge, alto e sem rosto. Mas não havia sinal de arrombamento, nem de violência.

As crianças passaram a delirar. Diziam que o sangue era da irmã, que o monstro as obrigou a cortarem ela. Mas não sabiam dizer o que foi feito com o corpo, nem como esfaquearam a irmã.

O delegado desconfia que elas estejam inventando essa história. O que é bastante possível, sabe como são esses meninos, mas eles juram seriamente e com tal veemência que foi obra do tal monstro, que não há como desconfiar deles por mais tempo.

Florence, não há como ter sido alguém de fora da casa, estava tudo trancado, por dentro! As janelas não abriam há anos, a própria dona Matilde já havia conversado com Antônia sobre o perigo da casa não ganhar ar fresco. E a casa estava completamente revirada, destruída mesmo, como se fosse vítima de um furacão. Criança alguma teria força para jogar as cadeiras todas em cima do armário da cozinha. Homem nenhum teria força sozinho para quebrar aqueles móveis velhos e pesados. Para você ter uma ideia, a mesa da sala era de madeira maciça, reaproveitada de uma obra, e foram necessários cinco homens pra carregá-la até lá, foram cinco operários bem fortes, e a mesa simplesmente virou pó. A polícia inclusive conversou com esses cinco homens, que poderiam até terem atacado as crianças, mas todos tinham explicação de onde estavam, tinham testemunhas e foram descartados como suspeitos. Até o homem que certa vez foi expulso por Antônia foi interrogado, mas também tinha provas de sua inocência.

O impressionante que essa destruição toda não fez barulho, nenhum vizinho ouviu nada. Os meninos estão traumatizados. Não dormem mais no escuro, e parece que conversam com alguém que não está lá. E Florence, dona Matilde conta que tem visto luzes onde não há eletricidade e ouvido vozes quando não há ninguém no quarto. Ela acha que as crianças estão querendo assustá-la, mas com que propósito? As pobres criaturas estão apavoradas, só choram e se fecham num mundo delas, mantendo silêncio por horas.

Os dois bebês estão bem, parecem não ter sofrido nada, embora os dois apresentem manchas de queimadura na mesma parte do corpo: abaixo das costelas. São manchas com o mesmo desenho. Parecem queimaduras, mas elas não sentem dor.

As crianças ainda estão provisoriamente com dona Matilde, mas a pobre velha está definhando, parece doente e parece que a qualquer momento vai entrar no mesmo estado catatônico dos meninos.
Com esse sumiço a cidade ficou em polvorosa, não se fala em outra coisa. Aos poucos todos chegaram à conclusão que vez por outra some uma garota na cidade. E fazendo as contas, nos últimos tempos foram 13. Ninguém sabe explicar. Os corpos nunca apareceram, e as desaparecidas nunca deram notícias. O fato é que todas elas sumiram misteriosamente. E fica ainda pior quando os detalhes de cada sumiço são revelados. Todas as testemunhas se lembram de um fato que se repetiu: as manchas nas costelas dos bebês das famílias cujas meninas sumiram.

A cidade está em pânico. Falamos de fantasmas, extraterrestes, serial killer, demônios e de Deus. Seria uma alucinação coletiva, uma histeria? Ninguém acha explicação, nada. Eu estou temendo pelas crianças. Andrey começou a falar em uma língua desconhecida. Juro que nunca ouvi, não é latim, nem italiano, nem francês, ninguém entende o que ele fala. O garoto tem lapsos de memória. Diz coisas que não se lembra de ter falado e, às vezes, conversa e ri sozinho. Entre os irmãos doentes, ele é o que manca, tem uma perna maior que a outra, e Florence, ele está deixando de mancar. Já não usa mais as muletas.

Pobres crianças. Precisamos da sua ajuda. Diga que vem, por favor? O Conselho de Segurança da Prefeitura avisa que tem verbas para sua passagem e estadia, nada de muito luxo, mas agradece antecipadamente se você puder colaborar com esse mistério. Também ofereço com prazer minha humilde casa para sua permanência durante a visita.

Estou bastante preocupada, semana passada mudou para aqui perto mais uma família, com duas meninas menores, e um bebê. Ontem a mãe das crianças saiu correndo de casa, carregando o filho no colo porque o menino estava com uma mancha igual a uma queimadura nas costelas. Ninguém da cidade teve coragem de comentar com ela sobre os desaparecimentos e sobre o caso todo.

Venha Florence, o mais rápido que você puder. Aguardo seu retorno. Um grande abraço fraterno, com admiração e esperança, sua M.R.

* escrito originalmente para o blog “cartas de madame red”

** Florence Cathcart é um personagem do filme “O Despertar” (The Awakening/ Reino Unido 2011). No longa, ela aparece como escritora do livro “Vendo através dos espíritos”.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

*MARIALVA E O CORPO DE MUITAS MORADAS*




Marialva arrumou emprego na casa da madame Janet e nem por um decreto aceitava ficar no escuro. Dormia sempre com algo a iluminar o ambiente. Sempre se via uma vela acesa onde Marialva estava.

A moça chegou na cidade de mansinho, carregava uma pequena mala, cabelos presos em coques, saias longas e cores neutras. Meio magricela, branquinha de dar dó. No rosto sequer um brilho, um batom, nada. Era garota engraçadinha, que sem enfeites passava logo despercebida na multidão. Chegou acanhada e pedindo emprego. Já havia sido tutora de crianças no interior, onde trabalhou com a senhorita Giddens* por um período.

A história da senhorita Giddens já havia chegado por aqui. Contou-se em boatos que a velha governanta Giddens estava louca. Teve problemas sérios com as crianças que cuidava. Assim que ela foi internada no sanatório Marialva também deixou a mansão, vindo parar nas bandas de cá.

Na mala carregava pouca roupa, nenhum perfume, nenhum dinheiro e muito medo do escuro. Dizem Madame Janet não ligou muito para essa estranheza, já que acredita que todos têm seus medos e segredos e não se deve ficar cuidando da vida alheia. Desde que não atrapalhasse o andamento da casa, estava tudo certo.

E a garota sem graça foi ser uma espécie de professora particular do filho de madame Janet, Daniel. Se deram bem. Havia respeito entre eles, e nunca se ouviu um levantar de voz, uma reprimenda, nada. Tudo andava certo, como tinha que ser.

Além do medo do escuro Marialva também tinha uma vida bem particular. Sumia quase todas as noites e não avisava pra onde ia. Estava sempre à disposição na hora certa, sempre pronta para dar atenção ao garoto, mas não dava satisfação e quase não falava com a patroa. E assim se estabeleceu.

O tempo passou e madame Janet nem percebeu que o filho cresceu e só tinha olhos para a professora. Enamorado, passava os dias a espionar por onde Marialva andava. Certa vez, numa dessas andanças atrás dela o rapaz encontrou Marialva no jardim da casa. Cantava sozinha uma canção muito triste. Pensou ter visto lágrimas nos olhos da moça, mas era apenas o reflexo do lago naquele rosto tristonho. Ficou hipnotizado ouvindo aquela cantoria.

De repente Marialva parou de cantar. Fez-se um silêncio mortal. Daniel abriu os olhos que estavam fechados viajando na música e deu de cara com a mulher bem pertinho dele. Encarava séria, dentro dos olhos. Marialva não tinha nada cândido naquele momento. Parecia uma velha bruxa, uma medusa mitológica coberta por uma pele que não era a dela. E ele sentiu medo. Um calafrio passou pela espinha, arrepiou os cabelos. Tentou sair correndo, mas tropeçou e se foi ao chão.

O momento de pânico desapareceu. Marialva estava de volta, soltou um gritinho ao ver o rapaz com o joelho machucado e sorria enquanto brincava de chamá-lo de atrapalhado. Mas o filho de madame Janet não se convenceu, já ultrapassara a idade de dar risadinhas do desconhecido. O medo quase palpável ainda estava ali. Aqueles olhos de loucura não deixaram o pensamento dele. Foi pra cama com mais medo do que nunca, e não parava de pensar em tudo o que sentiu naquela tarde.

No outro dia nem quis tomar café com a tutora, na hora do almoço também inventou uma desculpa qualquer. Ele perdeu o encanto pela professora enquanto a mãe se perdia nas costuras e desenhos que fazia o dia inteiro. O pai, Simon, nem tomava conhecimento da existência do garoto, muito menos da senhorita Marialva, que para ele não passava de um nome.

Daniel cada vez mais assustado passou a também ter medo de escuro. Dormia com uma vela acesa, achava desculpas para se deitar e adormecer próximo à lareira, e mantinha uma lanterna por perto. Começou a ir mal nos estudos. Tudo parecia decair ao seu redor. Menos Marialva que a cada dia estava mais bonita, já pintava os lábios, o cabelo tomava brilho e as roupas ficavam mais ousadas.

Numa noite, depois de sair mais uma vez sem avisar, Marialva não percebeu que novamente Daniel perseguia seus passos. Andou atrás dela em cada viela que foi, em cada rua escura, em cada beco sujo. Ela andava como sem saber para onde ir. Sentia no ar um cheiro que a guiava. Finalmente entrou numa casa pequena no fim da rua. Praticamente um casebre, com uma porta grande, com grades enferrujadas. Um muro em frente encobria a escuridão que havia por ali. Daniel se pendurou no muro e olhou de relance para dentro da casa. Umas cinco pessoas estavam por lá. Sentadas em volta da mesa, conversavam animadas. Comiam o que parecia ser carne com muito sangue. Não dava pra ver direito porque a sala era iluminada apenas por velhos e gastos candelabros. Mas assim que firmou a vista ele pode ver a cena grotesca que se desenrolava lá dentro. As pessoas comiam carne sim, carne com sangue. Carne humana. Braços, pernas, até mesmo cabeças estavam em cima da mesa. O garoto quase vomitou ao perceber o que os olhos mostravam.

Num súbito mal-estar pulou o muro e voltou para casa em desabalada carreira. Desesperado nem percebeu que Marialva corria atrás dele. Meio trôpego chegou ao portão de entrada, sem fôlego. Antes de abrir a porta e contar tudo para a mãe, Marialva o alcançou. E veio tomada de uma lascívia, com fogo nos olhos.

Daniel parou e sentiu-se atraído por aquela mulher que não tinha mais nada de timidez. Marialva agora era sexy, com boca carnuda, lábios vermelhos, o vestido meio caído no ombro estava rasgado. Uma fenda deixava as pernas à mostra. Os cabelos acobreados caiam em caracol emoldurando o colo. Os seios fartos se mostravam através do tecido molhado de suor. Marialva era um convite ao sexo. A pele branca exibia pequenas marcas de dedos e mãos que haviam apalpado aquele corpo. Ela se esfregou nele, falou baixinho no ouvido que não era para ele ter medo, que ela só queria um beijo. E agarrou sua mão. Rodearam a casa, entraram pelos fundos e foram até o quarto dela. Enquanto tiravam a roupa freneticamente, a mulher beijava o corpo dele, mordiscava, lambia. Ele nu não conseguia segurar o desejo que estava sentindo. Fizeram sexo como ele nunca imaginou ser possível.

Entre arranhões e mordidas, o sangue se espalhou pela cama. E eles ficaram por ali, suando e se misturando àquilo. Ele amou Marialva e não sentia mais medo. Queria explicações.

Depois de uma maratona de carícias e sussurros, numa orgia onde não pareciam dois, mas pelo menos oito corpos se entrelaçando, desabaram cada um para um lado. Languidos ainda acharam força para se beijarem. O gosto de sangue ainda estava na língua dela, e ele não se importou. Queria mais e mais.

A vela que iluminava o quarto de repente se apagou. Tudo ficou escuro. Daniel ficou apreensivo porque nunca mais havia enfrentando a escuridão e Marialva soltou um grito. De terror, de medo, de pavor. Foi como se tivessem apagando a vida dela. E foi mais ou menos isso o que aconteceu. Até ele achar alguma coisa para iluminar o quarto, o corpo de Marialva se desfazia.

No reflexo da lua que entrava pela janela ele pode ver que ela praticamente derretia, se contorcia de dor, e aos olhos dele é como se Marialva se transformasse em outras formas e, às vezes, ficasse meio transparente. Como se vários monstros sobrenaturais quisessem sair debaixo da pele dela. Finalmente Daniel tomou coragem e foi pegar a lanterna que tinha no quarto. Pode passar correndo nu pela sala porque os pais há muito dormiam um sono pesado. De volta a Marialva, ela ainda lutava com um inimigo invisível. Assim que ligou a lanterna, pode ver o rosto cansado, mas novamente de uma moça tímida, e sem graça.

Ele estava apavorado. Marialva ficou quieta. Mantinha uma respiração ofegante, mas não estava mais desaparecendo. Quase sem voz ela explicou a Daniel que a escuridão sugava o corpo dela. Que a falta de luz a levava embora.

– Embora para onde? Perguntou ele.

– Para longe daqui. Bem longe. Para onde existe o medo e a solidão. Para onde se faz muitas moradas. Onde meu corpo é propriedade de ninguém e qualquer um pode chegar, explicou-se lentamente a Daniel.

Ela contou que ele não teve uma alucinação naquele dia no jardim. Era mesmo uma espécie de velha bruxa má que estava ali, dentro dela. Às vezes ela não tem controle e eles tomam conta dela.

– E o jantar? O que eu vi hoje? Quis saber Daniel.

Marialva contou que era a maneira que “eles” (os iguais a ela) tinham achado para acalmar os demônios da alma. Ao comer carne humana aqueles que habitavam o além se sentiam satisfeitos e não incomodavam muito. O problema é que os fantasmas queriam sempre mais e mais, e é difícil saciar a fome com carne humana.

– Logo aparece alguém para investigar, falou Marialva. 

Contou também que a forma de garantir que ninguém iria pegá-lo, apesar do que tinha visto, era ela se apaixonar por ele, para que os matadores do submundo não o vissem como inimigo.

Ele agora fazia parte da tribo.

– Eu não quero fazer parte disso, gritou com nojo, mas ainda louco para beijar e abraçar aquela mulher nua que falava em murmúrio com ele.

– Não? Perguntou Marialva triste.

– Não. Vá embora Marialva, não volte mais. 

Ela apagou a lanterna que Daniel jogou no chão e fechou os olhos. Não fazia mais parte daquele corpo. Os errantes do outro mundo tomaram conta dela. O que se passou ali ninguém sabe. Nunca mais ninguém viu Daniel. A mãe ficou louca. Vagueia pela casa à procura do filho. O pai de Daniel morreu, do coração, de repente. Marialva ainda foi vista deixando a cidade num passo lento e de coque no cabelo. Os moradores daqui juram que depois do ocorrido ainda encontram à noite com uma moça "bem parecida com a ex-professora de Daniel, da casa da madame Janet". Alguns becos amanhecem sujos de sangue e vez por outra somem misteriosamente prostitutas e ladrões sem deixar rastros.

Já a casa de madame Janet nunca mais foi a mesma. Nada se faz no escuro. Quando a escuridão chega, traz com ela sussurros e gritos que deixam qualquer um de cabelo em pé. Por lá existe sempre uma vela acesa.

FIM


* a senhorita giddens é a governanta do livro "a volta do parafuso" , de henry james...
** madame janet é uma referência ao filme "a mulher de preto".