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terça-feira, 31 de dezembro de 2013

que venha 2014


não aguento texto que começa com: último dia do ano; fim do ano; o ano acabou...todo mundo sabe que hoje é dia 31. mas como é clichê, praxe, e faz parte, vamos lá: último dia do ano. dia de fazer um pequeno balanço do que se foi.
é sabido que nada vai mudar amanhã. absolutamente nada. o que pode mudar é você. se você não mudar, não vai adiantar nada chegar um ano novo. mas como o assunto da vez são os fins e recomeços, vou aproveitar pra rever o que passou. e como gosto de listas. lá vão algumas :
p.s - minhas listas são sempre com 7 itens.

COISAS RUINS EM 2013:

1 - não engravidei
2 - não emagreci
3 - não ganhei aumento salarial
4 - não troquei meu sofá
5 - continuei bagunceira
6 - viajei pouco
7 - meu papai ficou doente duas vezes

COISAS BOAS EM 2013:

1- shows do the cure e withesnake
2- conheci pessoas maravilhosas e estreitei laços com as mais antigas
3- madame red bombando
4- participação em vários livros
5- publicação de poema no correio braziliense
6- concorri a prêmios de jornalismo
7- convites para escrever em vários blogs

em geral, foi um ano bom. desgastante, mas bom.
a todos que me amam, aos que me odeiam, aos que me fazem crescer, obrigada.
um beijo e que venha 2014.


segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

CONTO NO FANZINE: GRÁTIS

Fanzine 36 - Adorável Noite - Contos de Vampiros e Terror - download gratuito

TEM CONTO MEU. A CHAVE.



Baixe o fanzine gratuitamente neste link:
http://www.overmundo.com.br/banco/fanzine-adoravel-noite-36

Fanzine Adorável Noite 36, dezembro 2013.
Nesta edição temos a participação dos seguintes autores abaixo:

Noturno
Denny Guinevere

Desejos Mortais
Adriano Siqueira

Um vampiro na praia
Hélio Flávio

A CHAVE
Andrea Carvalho


A joia da Condessa
Por: Patrícia Carla dos Santos

Encontro com a Vampira
Adriano Siqueira

Foto da Capa: Fabiana Ferreira - Hope Oleander

Obrigado pela colaboração, logo o fanzine estará disponível para download.

tenham uma Adorável Noite.
ttp://contosdevampiroseterror.blogspot.com.br/2013/12/fanzine-36-adoravel-noite-contos-de.html

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

SEXTA-FEIRA 13 E DAI?




amanhã é sexta-feira 13. nada vai mudar na sua vida. mas que há um monte de crenças por ai, há. e como é mesmo que começou essa história de sexta-feira 13 ser um dia maldito? 
começa com o número 13 que ganhou um certo status de lazarento por conta de várias superstições. diz que eram 13 apóstolos na última ceia, e o 13º seria judas, que traiu jesus. 
na roma antiga, as bruxas se juntavam em grupos de 12 - pois o 13º era o demônio. 
quer mais sobre o número 13? de acordo com a wikipedia, na numerologia o 12 é considerado de algo completo: 12 meses do ano, 12 tribos de israel, 12 apóstolos de jesus, 12 signos do zodíaco, 12 horas no relógio. já o 13 é uma transgressão e sinal de infortúnio e azar. 
no tarô o 13 significa morte. 
nunca se convidam 13 pessoas pra um jantar, na frança chegam a contratar o 14º convidado.
nos estados unidos muitos hotéis não possuem o 13º andar e dizem que na inglaterra os condenados davam 13 passos até chegar ao local onde iam ser enforcados. e adivinha qual era o dia das execuções oficiais? na sexta-feira! 
segundo a revista "national geographic" em 2004, olha que absurdo, quase U$ 900 milhões de dólares foram perdidos nas sextas-feiras 13 porque as pessoas se recusam a fazer negócios nessa data. 
e as superstições não param: existem histórias muito anteriores a cristo, como por exemplo na mitologia nórdica (agora que o thor e o loki estão na moda, fica fácil, qualquer um entende. obrigada vingadores!) que conta que houve um banquete e 12 deuses foram convidados. o loki, aquele do mal meio louquinho (sacaram o nome? loke, louco?), que muitos descrevem como espírito da discórdia, ou deus da travessura, apareceu sem ser convidado. seria o 13° conviva. chegou e armou um barraco. balder (filho de odin), conhecido como sendo um dos deuses favoritos, considerado deus da luz, o mais belo dos deuses, morreu na confusão (o loki fez uma fofoca enorme e o irmão hoder, deus da guerra, matou balder). 
outra versão é que a deusa do amor, da fertilidade e da beleza, esposa de odin e madrasta do thor, frigga (que deu origem a frigadag, friday, sexta-feira...ó já a ligação ai ó) foi transformada em bruxa quando as tribos nórdicas se converteram ao cristianismo. ai como vingança ela passou a se reunir todas as sextas-feiras com outras 11 bruxas e o demônio e os 13 ficavam rogando pragas aos humanos. enfim, a mitologia é grande mas sobre o número 13 seria isso. 
e a sexta-feira, o que tem de ruim? além de ser o dia da reunião da tal frigga lá da mitologia nórdica, católicos acreditam que a crucificação de jesus foi numa sexta-feira (a sexta-feira da paixão taí, né?) também há teólogos que especulam que o tal dilúvio da bíblia, aquele do noé começou numa sexta. foi o suficiente pros marinheiros da europa se borrarem de medo. eles simplesmente acreditaram que seria um dia de azar e pararam de zarpar nas sextas-feiras. 
seguindo ainda na linha do cristianismo, conta-se que em 13 de outubro de 1307 uma sexta-feira, o rei felipe iv da frança decretou que a ordem dos templários era ilegal. foi assim: diz que ele se cagava de pânico do poder e da influência da igreja dentro do reinado dele, pra agradar padres e troianos, ele tentou se filiar a ordem religiosa dos templários, mas os cavaleiros recusaram o fofo e ele ficou uma fera. mandou torturar e executar todos os templários do país, acusados de heresia. e a coitada da sexta ganhou fama de ser maldita. bom, se juntar a sexta-feira com o 13 ai vira filme de terror dos anos 80 (quem não conhece a musiquinha? quem não ficou se tremendo de medo do jason, aquele da máscara, do lago, lembram?), vira debate, vira até assunto em blog. se você pesquisar na internet vai encontrar coisas como: " O império asteca acabou quando hernan cortés capturou o rei de tenochtitlán, em 13 de agosto de 1521, uma sexta-feira". 
e você sabia que tem gente que tem tanto medo da data que é doente? o nome da fobia de quem tem medo de sexta-feira 13 é parascavedecatriafobia (tenta dizer isso rápido 3 vezes seguidas) ou frigatriscaidecafobia (ah tá, ficou mais fácil, né? ¬¬). 
são muitas as curiosidades que não servem pra nada. o único porém na data de amanhã é que existem uns ignorantes que consideram a sexta-feira 13 coisa do demônio, outros têm religiões estranhas e acabam maltratando gatos pretos. o ser humano é nojento e cria superstições desde o primeiro suspiro da história, assim surgem datas e crenças. é normal. o que não dá pra engolir é que se faça mal aos bichinhos que não tem nada a ver com isso. e um alerta, se você tem gatinho preto, cuide pra ele não sair de casa amanhã. nunca se sabe...fique de olho e denuncie!!!! 


a ignorância humana cria verdades absurdas 









domingo, 8 de dezembro de 2013

O MISTERIOSO CASO DA MENINA QUE DESAPARECEU




Minha querida Florence** escrevo com a intenção de lhe pedir uma visita. Sei de suas andanças pelo exterior, que sua vida está muito ocupada, mas preciso, aliás, precisamos, eu e meus vizinhos, de todo o seu conhecimento. A propósito devo dizer que "devorei" seu livro, parabéns, você realmente é genial. Estão lhe chamando elogiosamente de "o pesadelo dos fantasmas". Você merece todas as honras. Sabemos que você desenvolveu técnicas assustadoramente eficientes de dedução e lógica para descobrir fraudes de pessoas mal intencionadas que tentam enganar quem acredita em coisas do além. Justamente essa sua capacidade de desvendar fenômenos paranormais se tornou nossa última esperança.

Minha cara, só você pode nos ajudar. Confirmei sua vocação por um senhor muito agradecido que, cordial e espontaneamente, me contou que você conseguiu desvendar o mistério dos meninos que andavam assombrados naquele orfanato. Detalhou que você descobriu a tramoia e o esquema todo do golpe que a cozinheira e o jardineiro queriam aplicar nos donos da casa onde funcionava o abrigo para os órfãos. Então, minha querida amiga, o quanto antes você puder vir ajudar a desvendar mais um mistério, muito ficarei agradecida.

O fato se dá na cidadela onde minha ex-cunhada mora...lembra dela? A espevitada Vanusa? Aquela que tinha uma mania horrorosa de se meter na vida alheia? Pois veio dela a notícia de que uma moça de nome Antônia desapareceu. Antônia é muda e mora em um casebre pobre no final da rua da Vanusa.
Antônia vivia com outros seis irmãos, cada um com um problema de saúde pior que o outro. Ela criou todos sozinha, mesmo muda e analfabeta. Pobre garota. Nunca consegui imaginar o tamanho do sofrimento de ficar órfã aos 16 anos e tomar para si a responsabilidade de criar os irmãos. Mas ela lutou muito e se mantinha relativamente bem até alguns dias atrás.

Na verdade ela não é a primeira a sumir. Pelos meus cálculos já seria a décima terceira mulher desaparecida. Quer dizer, desde que começamos a prestar atenção, pode ter mais. O sumiço de Antônia só foi percebido porque todos sabem da dificuldade daquela família e muitos ajudam como podem, levando alguma muda de roupa, ou comida. Alguns até tentam se aproveitar da pobreza e necessidade da menina fazendo as mais indecorosas propostas. Mas nunca se soube de ela ter aceito prestar serviços, digamos, ortodoxos, para conseguir criar os menores. Nunca se falou nada sobre a garota se prostituir, ou se meter em confusão com drogas e afins. Tomei conhecimento que certa vez o homem que comanda o jogo clandestino na cidadela se interessou em levar a menina pra casa dele, sem pagar salário, numa espécie de apadrinhamento, onde ela prestaria serviços domésticos e eventuais serviços sexuais, com a condição de deixar os irmãos a cargo do Conselho Tutelar. Dizem que ela teria expulsado o homem de dentro do barraco proferindo guinchos e grunhidos.

Como ia dizendo, muita gente colabora com a família, entre elas dona Matilde, que mora ao lado do casebre. Ela foi levar um frango assado para os meninos e encontrou a casa toda trancada. Bateu e ninguém atendeu. Como a casa é bastante velha, ela logo pegou um pedaço de madeira, uma tora de lenha ali de perto, e bateu tanto na parede que conseguiu fazer um buraco no material podre que sustentava a casa. Entrou por ele e encontrou tudo de cabeça para baixo. Os dois bebês menores, choravam copiosamente no berço. Andrey, o segundo mais velho, depois de Antônia, caminhava atônito de um lado para o outro com uma expressão de horror. Os outros três ficaram apenas sentados no chão olhando para a parede, como que hipnotizados de medo e susto.

Dona Matilde demorou para conseguir a atenção dos meninos. Pegou os dois menorzinhos e levou para sua própria casa onde imediatamente providenciou uma roupa para eles. Chamou a filha mais velha para olhar as crianças enquanto voltava a fim de resgatar os outros irmãos.

Levou todos para dentro do banheiro para dar um banho demorado nos meninos encardidos. O horror é que dona Matilde descobriu que eles estavam todos sujos de fuligem e sangue.

Quando a água quente bateu no corpinho deles, começou uma gritaria como se fosse água benta caindo sobre demônios. Foi como se todos deixassem um transe e se dessem conta de onde estavam. Demoraram a aceitar que dona Matilde terminasse o banho.

Minha ex-cunhada foi logo ver o que havia acontecido e quando chegou até a casa, as crianças já estavam limpas e sentadas à mesa esperando a sopa que dona Matilde esquentava no fogão à lenha. A velha estava apavorada. Contou que os meninos não diziam coisa com coisa, que falavam que a irmã tinha ido embora para sempre. Contou sobre o sangue que se espalhou pelas roupas, cabelos, mãos.

Os meninos comeram e foram deitar embalados por um cansaço quase adulto. Pobres crianças minha querida Florence. Pouco depois todos acordaram ao mesmo tempo, aos gritos, chamando pela irmã Antônia.

A polícia foi ao local e não conseguiu descobrir nada. Não há vestígios de fuga, nenhuma roupa foi levada, não há indício de sequestro. A menina é tão pobre e doente que não haveria motivos, não é mesmo? Os pequenos falavam de um monstro vestido em uma roupa de monge, alto e sem rosto. Mas não havia sinal de arrombamento, nem de violência.

As crianças passaram a delirar. Diziam que o sangue era da irmã, que o monstro as obrigou a cortarem ela. Mas não sabiam dizer o que foi feito com o corpo, nem como esfaquearam a irmã.

O delegado desconfia que elas estejam inventando essa história. O que é bastante possível, sabe como são esses meninos, mas eles juram seriamente e com tal veemência que foi obra do tal monstro, que não há como desconfiar deles por mais tempo.

Florence, não há como ter sido alguém de fora da casa, estava tudo trancado, por dentro! As janelas não abriam há anos, a própria dona Matilde já havia conversado com Antônia sobre o perigo da casa não ganhar ar fresco. E a casa estava completamente revirada, destruída mesmo, como se fosse vítima de um furacão. Criança alguma teria força para jogar as cadeiras todas em cima do armário da cozinha. Homem nenhum teria força sozinho para quebrar aqueles móveis velhos e pesados. Para você ter uma ideia, a mesa da sala era de madeira maciça, reaproveitada de uma obra, e foram necessários cinco homens pra carregá-la até lá, foram cinco operários bem fortes, e a mesa simplesmente virou pó. A polícia inclusive conversou com esses cinco homens, que poderiam até terem atacado as crianças, mas todos tinham explicação de onde estavam, tinham testemunhas e foram descartados como suspeitos. Até o homem que certa vez foi expulso por Antônia foi interrogado, mas também tinha provas de sua inocência.

O impressionante que essa destruição toda não fez barulho, nenhum vizinho ouviu nada. Os meninos estão traumatizados. Não dormem mais no escuro, e parece que conversam com alguém que não está lá. E Florence, dona Matilde conta que tem visto luzes onde não há eletricidade e ouvido vozes quando não há ninguém no quarto. Ela acha que as crianças estão querendo assustá-la, mas com que propósito? As pobres criaturas estão apavoradas, só choram e se fecham num mundo delas, mantendo silêncio por horas.

Os dois bebês estão bem, parecem não ter sofrido nada, embora os dois apresentem manchas de queimadura na mesma parte do corpo: abaixo das costelas. São manchas com o mesmo desenho. Parecem queimaduras, mas elas não sentem dor.

As crianças ainda estão provisoriamente com dona Matilde, mas a pobre velha está definhando, parece doente e parece que a qualquer momento vai entrar no mesmo estado catatônico dos meninos.
Com esse sumiço a cidade ficou em polvorosa, não se fala em outra coisa. Aos poucos todos chegaram à conclusão que vez por outra some uma garota na cidade. E fazendo as contas, nos últimos tempos foram 13. Ninguém sabe explicar. Os corpos nunca apareceram, e as desaparecidas nunca deram notícias. O fato é que todas elas sumiram misteriosamente. E fica ainda pior quando os detalhes de cada sumiço são revelados. Todas as testemunhas se lembram de um fato que se repetiu: as manchas nas costelas dos bebês das famílias cujas meninas sumiram.

A cidade está em pânico. Falamos de fantasmas, extraterrestes, serial killer, demônios e de Deus. Seria uma alucinação coletiva, uma histeria? Ninguém acha explicação, nada. Eu estou temendo pelas crianças. Andrey começou a falar em uma língua desconhecida. Juro que nunca ouvi, não é latim, nem italiano, nem francês, ninguém entende o que ele fala. O garoto tem lapsos de memória. Diz coisas que não se lembra de ter falado e, às vezes, conversa e ri sozinho. Entre os irmãos doentes, ele é o que manca, tem uma perna maior que a outra, e Florence, ele está deixando de mancar. Já não usa mais as muletas.

Pobres crianças. Precisamos da sua ajuda. Diga que vem, por favor? O Conselho de Segurança da Prefeitura avisa que tem verbas para sua passagem e estadia, nada de muito luxo, mas agradece antecipadamente se você puder colaborar com esse mistério. Também ofereço com prazer minha humilde casa para sua permanência durante a visita.

Estou bastante preocupada, semana passada mudou para aqui perto mais uma família, com duas meninas menores, e um bebê. Ontem a mãe das crianças saiu correndo de casa, carregando o filho no colo porque o menino estava com uma mancha igual a uma queimadura nas costelas. Ninguém da cidade teve coragem de comentar com ela sobre os desaparecimentos e sobre o caso todo.

Venha Florence, o mais rápido que você puder. Aguardo seu retorno. Um grande abraço fraterno, com admiração e esperança, sua M.R.

* escrito originalmente para o blog “cartas de madame red”

** Florence Cathcart é um personagem do filme “O Despertar” (The Awakening/ Reino Unido 2011). No longa, ela aparece como escritora do livro “Vendo através dos espíritos”.


terça-feira, 3 de dezembro de 2013

*MARIALVA E O CORPO DE MUITAS MORADAS*




Marialva arrumou emprego na casa da madame Janet e nem por um decreto aceitava ficar no escuro. Dormia sempre com algo a iluminar o ambiente. Sempre se via uma vela acesa onde Marialva estava.

A moça chegou na cidade de mansinho, carregava uma pequena mala, cabelos presos em coques, saias longas e cores neutras. Meio magricela, branquinha de dar dó. No rosto sequer um brilho, um batom, nada. Era garota engraçadinha, que sem enfeites passava logo despercebida na multidão. Chegou acanhada e pedindo emprego. Já havia sido tutora de crianças no interior, onde trabalhou com a senhorita Giddens* por um período.

A história da senhorita Giddens já havia chegado por aqui. Contou-se em boatos que a velha governanta Giddens estava louca. Teve problemas sérios com as crianças que cuidava. Assim que ela foi internada no sanatório Marialva também deixou a mansão, vindo parar nas bandas de cá.

Na mala carregava pouca roupa, nenhum perfume, nenhum dinheiro e muito medo do escuro. Dizem Madame Janet não ligou muito para essa estranheza, já que acredita que todos têm seus medos e segredos e não se deve ficar cuidando da vida alheia. Desde que não atrapalhasse o andamento da casa, estava tudo certo.

E a garota sem graça foi ser uma espécie de professora particular do filho de madame Janet, Daniel. Se deram bem. Havia respeito entre eles, e nunca se ouviu um levantar de voz, uma reprimenda, nada. Tudo andava certo, como tinha que ser.

Além do medo do escuro Marialva também tinha uma vida bem particular. Sumia quase todas as noites e não avisava pra onde ia. Estava sempre à disposição na hora certa, sempre pronta para dar atenção ao garoto, mas não dava satisfação e quase não falava com a patroa. E assim se estabeleceu.

O tempo passou e madame Janet nem percebeu que o filho cresceu e só tinha olhos para a professora. Enamorado, passava os dias a espionar por onde Marialva andava. Certa vez, numa dessas andanças atrás dela o rapaz encontrou Marialva no jardim da casa. Cantava sozinha uma canção muito triste. Pensou ter visto lágrimas nos olhos da moça, mas era apenas o reflexo do lago naquele rosto tristonho. Ficou hipnotizado ouvindo aquela cantoria.

De repente Marialva parou de cantar. Fez-se um silêncio mortal. Daniel abriu os olhos que estavam fechados viajando na música e deu de cara com a mulher bem pertinho dele. Encarava séria, dentro dos olhos. Marialva não tinha nada cândido naquele momento. Parecia uma velha bruxa, uma medusa mitológica coberta por uma pele que não era a dela. E ele sentiu medo. Um calafrio passou pela espinha, arrepiou os cabelos. Tentou sair correndo, mas tropeçou e se foi ao chão.

O momento de pânico desapareceu. Marialva estava de volta, soltou um gritinho ao ver o rapaz com o joelho machucado e sorria enquanto brincava de chamá-lo de atrapalhado. Mas o filho de madame Janet não se convenceu, já ultrapassara a idade de dar risadinhas do desconhecido. O medo quase palpável ainda estava ali. Aqueles olhos de loucura não deixaram o pensamento dele. Foi pra cama com mais medo do que nunca, e não parava de pensar em tudo o que sentiu naquela tarde.

No outro dia nem quis tomar café com a tutora, na hora do almoço também inventou uma desculpa qualquer. Ele perdeu o encanto pela professora enquanto a mãe se perdia nas costuras e desenhos que fazia o dia inteiro. O pai, Simon, nem tomava conhecimento da existência do garoto, muito menos da senhorita Marialva, que para ele não passava de um nome.

Daniel cada vez mais assustado passou a também ter medo de escuro. Dormia com uma vela acesa, achava desculpas para se deitar e adormecer próximo à lareira, e mantinha uma lanterna por perto. Começou a ir mal nos estudos. Tudo parecia decair ao seu redor. Menos Marialva que a cada dia estava mais bonita, já pintava os lábios, o cabelo tomava brilho e as roupas ficavam mais ousadas.

Numa noite, depois de sair mais uma vez sem avisar, Marialva não percebeu que novamente Daniel perseguia seus passos. Andou atrás dela em cada viela que foi, em cada rua escura, em cada beco sujo. Ela andava como sem saber para onde ir. Sentia no ar um cheiro que a guiava. Finalmente entrou numa casa pequena no fim da rua. Praticamente um casebre, com uma porta grande, com grades enferrujadas. Um muro em frente encobria a escuridão que havia por ali. Daniel se pendurou no muro e olhou de relance para dentro da casa. Umas cinco pessoas estavam por lá. Sentadas em volta da mesa, conversavam animadas. Comiam o que parecia ser carne com muito sangue. Não dava pra ver direito porque a sala era iluminada apenas por velhos e gastos candelabros. Mas assim que firmou a vista ele pode ver a cena grotesca que se desenrolava lá dentro. As pessoas comiam carne sim, carne com sangue. Carne humana. Braços, pernas, até mesmo cabeças estavam em cima da mesa. O garoto quase vomitou ao perceber o que os olhos mostravam.

Num súbito mal-estar pulou o muro e voltou para casa em desabalada carreira. Desesperado nem percebeu que Marialva corria atrás dele. Meio trôpego chegou ao portão de entrada, sem fôlego. Antes de abrir a porta e contar tudo para a mãe, Marialva o alcançou. E veio tomada de uma lascívia, com fogo nos olhos.

Daniel parou e sentiu-se atraído por aquela mulher que não tinha mais nada de timidez. Marialva agora era sexy, com boca carnuda, lábios vermelhos, o vestido meio caído no ombro estava rasgado. Uma fenda deixava as pernas à mostra. Os cabelos acobreados caiam em caracol emoldurando o colo. Os seios fartos se mostravam através do tecido molhado de suor. Marialva era um convite ao sexo. A pele branca exibia pequenas marcas de dedos e mãos que haviam apalpado aquele corpo. Ela se esfregou nele, falou baixinho no ouvido que não era para ele ter medo, que ela só queria um beijo. E agarrou sua mão. Rodearam a casa, entraram pelos fundos e foram até o quarto dela. Enquanto tiravam a roupa freneticamente, a mulher beijava o corpo dele, mordiscava, lambia. Ele nu não conseguia segurar o desejo que estava sentindo. Fizeram sexo como ele nunca imaginou ser possível.

Entre arranhões e mordidas, o sangue se espalhou pela cama. E eles ficaram por ali, suando e se misturando àquilo. Ele amou Marialva e não sentia mais medo. Queria explicações.

Depois de uma maratona de carícias e sussurros, numa orgia onde não pareciam dois, mas pelo menos oito corpos se entrelaçando, desabaram cada um para um lado. Languidos ainda acharam força para se beijarem. O gosto de sangue ainda estava na língua dela, e ele não se importou. Queria mais e mais.

A vela que iluminava o quarto de repente se apagou. Tudo ficou escuro. Daniel ficou apreensivo porque nunca mais havia enfrentando a escuridão e Marialva soltou um grito. De terror, de medo, de pavor. Foi como se tivessem apagando a vida dela. E foi mais ou menos isso o que aconteceu. Até ele achar alguma coisa para iluminar o quarto, o corpo de Marialva se desfazia.

No reflexo da lua que entrava pela janela ele pode ver que ela praticamente derretia, se contorcia de dor, e aos olhos dele é como se Marialva se transformasse em outras formas e, às vezes, ficasse meio transparente. Como se vários monstros sobrenaturais quisessem sair debaixo da pele dela. Finalmente Daniel tomou coragem e foi pegar a lanterna que tinha no quarto. Pode passar correndo nu pela sala porque os pais há muito dormiam um sono pesado. De volta a Marialva, ela ainda lutava com um inimigo invisível. Assim que ligou a lanterna, pode ver o rosto cansado, mas novamente de uma moça tímida, e sem graça.

Ele estava apavorado. Marialva ficou quieta. Mantinha uma respiração ofegante, mas não estava mais desaparecendo. Quase sem voz ela explicou a Daniel que a escuridão sugava o corpo dela. Que a falta de luz a levava embora.

– Embora para onde? Perguntou ele.

– Para longe daqui. Bem longe. Para onde existe o medo e a solidão. Para onde se faz muitas moradas. Onde meu corpo é propriedade de ninguém e qualquer um pode chegar, explicou-se lentamente a Daniel.

Ela contou que ele não teve uma alucinação naquele dia no jardim. Era mesmo uma espécie de velha bruxa má que estava ali, dentro dela. Às vezes ela não tem controle e eles tomam conta dela.

– E o jantar? O que eu vi hoje? Quis saber Daniel.

Marialva contou que era a maneira que “eles” (os iguais a ela) tinham achado para acalmar os demônios da alma. Ao comer carne humana aqueles que habitavam o além se sentiam satisfeitos e não incomodavam muito. O problema é que os fantasmas queriam sempre mais e mais, e é difícil saciar a fome com carne humana.

– Logo aparece alguém para investigar, falou Marialva. 

Contou também que a forma de garantir que ninguém iria pegá-lo, apesar do que tinha visto, era ela se apaixonar por ele, para que os matadores do submundo não o vissem como inimigo.

Ele agora fazia parte da tribo.

– Eu não quero fazer parte disso, gritou com nojo, mas ainda louco para beijar e abraçar aquela mulher nua que falava em murmúrio com ele.

– Não? Perguntou Marialva triste.

– Não. Vá embora Marialva, não volte mais. 

Ela apagou a lanterna que Daniel jogou no chão e fechou os olhos. Não fazia mais parte daquele corpo. Os errantes do outro mundo tomaram conta dela. O que se passou ali ninguém sabe. Nunca mais ninguém viu Daniel. A mãe ficou louca. Vagueia pela casa à procura do filho. O pai de Daniel morreu, do coração, de repente. Marialva ainda foi vista deixando a cidade num passo lento e de coque no cabelo. Os moradores daqui juram que depois do ocorrido ainda encontram à noite com uma moça "bem parecida com a ex-professora de Daniel, da casa da madame Janet". Alguns becos amanhecem sujos de sangue e vez por outra somem misteriosamente prostitutas e ladrões sem deixar rastros.

Já a casa de madame Janet nunca mais foi a mesma. Nada se faz no escuro. Quando a escuridão chega, traz com ela sussurros e gritos que deixam qualquer um de cabelo em pé. Por lá existe sempre uma vela acesa.

FIM


* a senhorita giddens é a governanta do livro "a volta do parafuso" , de henry james...
** madame janet é uma referência ao filme "a mulher de preto". 

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

*O MORTO*



**ESTE TEXTO É A CONTINUAÇÃO DO CONTO "O MORTO" DE LUCIANO SILVA VIEIRA.

Nunca esquecerei o dia em que o vi: o morto.
O homem morto jazia no chão, seus olhos, tais como duas diminutas esferas de vidro, refletiam o vazio.
“Ele pulou” – falou alguém – “o pobre coitado se matou.”
Nunca havia visto um morto antes e na minha mente infantil aquele acontecimento marcava uma fronteira em minha curta existência, pela primeira vez me dava conta da finitude da vida, não éramos eternos como pensava até então, um dia a vida acaba.
Assim deixei o morto, mas o morto não me deixou. Foi comigo em meus pensamentos, seus olhos de vidro se abriam sempre quando eu fechava os meus...
Foi assim que naquele dia resolvi matar aula. Depois de ver o morto simplesmente atravessei a rua e desviei da multidão que se formava em volta do corpo. Eu sentia um frio na alma, uma solidão inexplicável.  Corri o mais rápido que pude, quase me perdendo entre as ruas do centro da cidade.
Cheguei em casa apavorado.
Ouvi minha mãe preparando o almoço. Já no quarto, joguei a mochila num canto e fiquei paralisado sentado ao lado da cama.
– Luciano , meu filho? É você?
Ouvi minha mãe chamando lá da cozinha. Não respondi.
– Luciano? O que aconteceu criatura? Não era para você estar na escola uma hora destas?
– Não teve aula mãe, menti em voz baixa.
– O quê? Não ouvi. Vem já aqui, dizia dona Délia, sem paciência.
Levantei do meu refugio e fui tentar explicar o inexplicável:
– Não teve aula mãe, teve um acidente perto da escola e a gente foi dispensado.
– Que acidente? Ai meu Deus, você está bem?
– Tô mãe. Para, não aconteceu nada comigo, eu dizia me esquivando das mãos preocupadas de mamãe que já procuravam possíveis machucados hediondos em meu corpo.
Contei a ela metade da história. Disse que no caminho houve um acidente, alguém fora atropelado, ou se jogou de um prédio.
– Minha nossa senhora. E você viu alguma coisa?
– Não, não vi nada. Me deixa mãe. Tô com fome. O que tem pro almoço, disse eu desviando o assunto.
– Ah Lucinho ainda vai demorar. Perdi muito tempo tentando falar com seu avô. Me atrasei com tudo, reclamava dona Délia falando sem respirar. Ele está cada vez mais difícil. Você acredita que já liguei três vezes e ele não atendeu o telefone? Você sabe que...ah, deixa pra lá. Já que você não teve aula, vá ler alguma coisa enquanto termino essa comida.
Obedeci. Voltei ao quarto, me joguei na cama e fechei os olhos. Cada vez que eu tentava pegar no sono, os olhos do morto me encaravam. Abriam-se em minha mente.  Era como se eu e ele fossemos um só. A primeira vez foi um susto. Quase cai da cama.
Os olhos se abriam dentro de mim e passaram a me mostrar o que viam. E eu via a mim mesmo. Mas não conseguia entender: eu estava deitado e me via em pé na minha frente. Foi quando me dei conta que eu via através dos olhos do morto. Era a cena do acidente. O momento em que passei por ele.
Acordei num pulo e abafei um grito. Nesse momento mamãe me chamou para o almoço. Sentei a mesa sem conseguir comer muita coisa.
– Este menino tá muito estranho hoje, comentava minha mãe com o passarinho de estimação que mantinha na gaiola perto da lavanderia.
Voltei ao quarto e estava com medo de fechar meus olhos novamente.
Desisti de ficar sozinho. Sai, fui andar pela rua. Encontrei a turminha do futebol, aceitei uma partida. Fomos lanchar na casa do Fernando e a tarde passou rapidamente.
Quando voltei pra casa meu pai já estava na sala com seu tradicional copinho de cerveja na mão.
– Boa noite, Luciano. Vai logo tomar banho que sua mãe já vai servir o jantar.
Assim fiz. Fui jantar. Assisti um pouco de TV e sucumbi ao sono. Fui quase me arrastando de volta ao quarto.
Puxei a coberta e mesmo sem querer fechei os olhos. Nesse momento cai. Cai num buraco profundo e quando cheguei ao chão me vi andando. Andava por ruas escuras cheia de bêbados. Postes mal iluminavam as pedras da calçada. O lugar cheirava a mijo. Na esquina uma mulher de cabelos cacheados, de vestido avermelhado, me chamava com o cigarro na mão:
– Senhorzinho, o programa custa menos de mil-réis.
Dobrei a esquina e me deparei com a polícia cuidando de um caso de morte. Cheguei perto e pude ver mais uma vez um corpo. O corpo de um homem estrangulado.
Encarei o morto e mais uma vez veio aquela sensação de estar conectado a ele, éramos um só. Eu via ele e me via através dele. Nessa hora acordei. Pulei da cama como se levasse um choque. Olhei o relógio da cabeceira e percebi: eu dormira apenas meia hora.
Tentei me acalmar e voltei a respirar normalmente. Novamente veio o sono e fechei os olhos. Por dentro de mim um novo par de olhos se abriu. Era dia e eu caminhava por uma trilha florida. O sol queimava meu rosto. Olhei em volta e a praia se mostrou. Era uma bela tarde de verão. Crianças brincavam na areia. Casais namoravam em frente ao mar. As roupas de banho eram recatadas, parecidíssimas com as que eu vira em alguma obra de arte na casa de vovô. Segui andando pela passarela beira-mar. Logo adiante a paisagem mudou. Uma multidão se aglomerava na calçada. Abri caminho e vi o corpo da mulher que se estendia no chão. Uma moça de não mais de vinte anos havia levado uma facada. Sangue se espalhava pelos cabelos. Olhei a cena, e vi a mulher me encarando. Olhos quase de vidro que me imploravam por ajuda. Dessa vez não acordei imediatamente. Dei dois passos em direção a ela. Nos conectamos e nesse momento a mulher mexeu os lábios. Eu me assustei. Despertei suando.
Não dormi mais naquela noite.
A partir dali meus sonhos tornaram-se pesadelos. Toda vez que eu fechava os olhos da realidade, passava a ver com os olhos internos. E a rotina era a mesma: encontrava um morto que me olhava, me conectava a ele e via tudo o que ele via. Cada morto que eu encarava me olhava de volta. Fui perdendo o medo. Aos poucos fui chegando mais perto.
Naquela noite o morto que encontrei foi uma criança pouco mais velha que eu. Uma menina que ao me encarar me chamou pelo nome: Luciano.
Reconheci a menina. Era a mesma que estava numa foto na casa dos meus avós. Puxei pela memória e lembrei: era a filha de uma das escravas amiga de minha bisavó. Ela sussurrou meu nome mais uma vez. Fui até ela e colei o ouvido em sua boca. A moça me disse com todas as letras: foi dom Martin. Me conectei a ela e pude ver tudo o que havia acontecido momentos antes de sua morte.
Acordei gritando. Pela primeira vez pude ver e ouvir o que os mortos tentavam me falar.
Sai agitado para a escola. Uma pesquisa rápida na biblioteca e descobri que dom Martin havia sido um senhor de engenho muito conhecido na cidade. Era rico e próspero. Meu avô havia me contado que minha bisavó morou nas terras dele trabalhando na mansão para ajudar minha tataravó com os serviços domésticos. Havia algumas poucas escravas ainda por lá. E a menina era filha de uma delas.
A garota que apareceu no sonho foi encontrada morta na casa de dom Martin. A explicação registrada pela polícia foi de que a criança havia caído da escadaria da mansão e batido a cabeça. Mas eu sabia da verdade: a morta me mostrou. Ela fora espancada até a morte por dom Martin, que além de estuprar a criança quis dar uma lição para que a garota não abrisse a boca. Bateu tanto que ela morreu. E agora eu sabia de tudo. Fiquei indignado. Prometi a mim mesmo que colocaria a boca no trombone. A justiça precisava ser feita.
Fui para casa arquitetando um plano para desenterrar casos antigos onde poucos se importavam em resolver e ainda acusar um rico fundador  da cidade de assassinato. Não parava de pensar naquilo. Dispensei o jantar e fui dormir sem tirar a menina da cabeça.
Naquela noite meus olhos internos me levaram para a rua onde encontrei o meu primeiro corpo. Estava eu novamente em frente ao morto que me encarava com diminutas esferas de vidro que refletiam o vazio. Dessa vez não sai correndo. Fiquei ali, firme, esperando ele mexer a boca.
E assim foi. O morto me chamou para perto. Fui andando lentamente até ele. Nessa hora ele falou: foi o delegado Diego. E a cena do delegado atirando o homem pela janela estava nítida na minha frente. Eu acabara de saber que o meu “primeiro morto” havia sido assassinado por um delegado para manter em segredo um esquema de lavagem de dinheiro.
 Acordei com a boca seca. Um delegado? Como assim? Na minha cabeça infantil eu achava impossível um homem da lei matar alguém. Perdia ali mais uma parte importante da minha inocência.
Não dormi mais. Passei a pensar como diabos eu, um menino franzino, mal saindo das fraldas, estudante mediano, vou ser levado a sério para desvendar essa série de crimes? E como alguém vai acreditar que falei com os mortos? Que vi as cenas das mortes através dos olhos das vítimas?
Havia três dias que vira o homem morto pelo delegado e eu estava perdido, mas alguma coisa precisava ser feita.
No outro dia pela manhã fui correndo falar com meu avô. “Ele sabe das coisas, só ele pode me dar uma solução”, pensei.
Cheguei a sua casinha no fim da rua e a porta estava trancada. Bati, bati e ouvi devagar os passos dele.
– Entra menino, estava te esperando.
Contei toda a história para o meu avô que pacientemente me ouviu sem dizer uma palavra. Quando terminei de falar apenas me disse:
– É que estou muito cansado. Vou embora e deixo pra você essa minha herança. Se cuida moleque. Levantou e foi em direção ao quarto.
Sai atrás dele sem entender nada. Quando cheguei no quarto encontrei o corpo do meu avô deitado na cama. Duro. Frio, quase roxo.
O médico legista avisou minha mãe que o velho estava morto havia três dias. Minha mãe se culpou por não ter procurado o próprio pai pessoalmente.
– Eu sabia que tinha acontecido alguma coisa, dizia ela em prantos... Quando ele não atendeu o telefone, eu sabia... Lamentava e chorava mais ainda.
Eu guardei o segredo dele para sempre. Agora ele faz parte de mim. Meu avô deixava para mim seu dom de falar com mortos.
Achei em uma mala embaixo da cama dele vários recortes de jornais carcomidos pelo tempo que falavam dos casos da mulher esfaqueada na praia, do homem estrangulado e como misteriosamente os assassinatos haviam sido desvendados. Também achei informações sobre a filha da escrava e dom Martin. Meu avô tentara de todas as formas incriminar o senhor de engenho, mas foi tudo em vão. Ele desistiu.
Cresci e também desisti. Aquele caso continuaria sem solução. O peso disso na minha alma me deixa cada dia mais triste e descrente.
Sigo pela vida tentando entender a morte. Sempre com os olhos dos mortos me encarando e pedindo socorro. Nem sempre faço justiça. Às vezes ela é impossível. Torço para que a justiça divina faça o que deve ser feito.
Agora deixa eu ir. Estou atrasado para o turno noturno na delegacia.
Hoje com certeza vai ser mais uma noite de assassinatos e casos inexplicáveis. Ou quase.
FIM

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

O BISTRÔ





ATENÇÃO, PROIBIDO PARA MENORES DE 18 ANOS:

http://www.recantodasletras.com.br/contoseroticos/4562815
OU
http://www.historia-erotica.com.br/contos-eroticos/madame-red/o-bistro
PARA QUEM GOSTA DE HISTÓRIAS PICANTES. O TEXTO É DA MADAME RED E ESTÁ NO LIVRO "CONTOS ERÓTICOS PARA LER A DOIS". UM BEIJO.

Ana Cristina tinha o costume de ir à loja no final da tarde. Cleber ficava ansioso esperando ela chegar.
Ele ajudava o pai. Ficava no caixa da loja de doces. Tomava conta de dois garçons, uma doceira e de uma menina “faz tudo”. O bistrô era pequeno, mas muito charmoso, todo em estilo “retrô”. Ana Cristina pedia sempre um capuccino e nunca dispensava um pedaço de torta.
Naquela tarde Cleber havia discutido com o irmão. Estava furioso. Ana entrou, sentou no canto. Os garçons estavam ocupados, Cleber saiu do caixa e foi falar com ela.
Ana sorriu e pediu apenas o café. Cleber trouxe o pedido e uma torta de nozes. 
– Ei, eu não pedi a torta, avisou ela, simpática.
– Tudo bem, é por conta da casa, explicou ele.
– Ah é? Nossa, o que eu fiz para merecer?
– Você sorriu e me fez perder o mau humor.
Ana sorriu novamente e percebeu que os olhos de Cleber não saíram de cima dela. Gostou do flerte.
Foi embora e Cleber fez questão de não cobrar a conta. Ainda deu uma piscadinha de olho. 
Ana foi embora com a impressão de que dali havia surgido algo mais que um simples café.
No outro dia voltou e encontrou novamente o moço bonito atrás do balcão. Sorriu em direção a ele e disse:
– Hoje, faço questão de pagar, nem adianta insistir.
Ele sorriu de volta e mandou o garçom servir. De longe observava Ana Cristina.  Foi até a mesa e disse:
– No bistrô servimos taças de vinho também. Aceita uma por conta da casa?
Ela riu, gostou da investida, mas disse que não poderia. Dali ainda iria ao teatro. Ele então convidou:
– Depois do teatro então? 
– Não sei não... Disse ela, fazendo certo charme.
– Por favor? Você vem até aqui. Eu abro a porta. Estaremos sozinhos. Meu pai não vai se importar.
– Ah, você é filho do dono?
– Sim, um deles. Muito prazer, Cleber.
– Hum, está bem. Sou Ana, lá pelas nove eu apareço. 
– Está feito então.
Ana Cristina foi para o teatro. Passava em pensamento a conversa que acabara de ter com o “moço bonito da loja de doces”. Era assim que ela havia apelidado ele antes de saber que se chamava Cleber. Também pensou se a calcinha que estava usando era digna de um primeiro encontro. Não era.
Ana Cristina chegou nove e quinze. Bateu devagar na porta. Lá dentro um aconchegante ambiente iluminado por velas esperava por ela.
Tirou o casaco, sentou na cadeira indicada por Cleber. Ele abriu o vinho, ofereceu uns petit four e perguntou como tinha sido a peça de teatro. Ana contou em detalhes.
Ficaram os dois conversando, se conhecendo, se entendendo. O vinho subiu à cabeça de Ana mais rápido do que imaginara e logo estava rindo à toa da conversa de Cleber.
Ele foi se aproximando, e logo estava beijando a mulher com desejo. Ela recebeu seus beijos com tesão. Abraçaram-se e o calor do corpo deles foi aumentando.
Cleber ficou em pé diante dela e a pegou pela mão. Ana levantou meio cambaleando. Os dois se abraçaram. Trocaram mais beijos quentes. Ele então começou a tirar a roupa de Ana Cristina. Ela estava zonza de excitação e vinho. Ajudou Cleber a tirar sua blusa. Ele a beijava enquanto explorava seu corpo. Puxava Ana para perto de si. Tirou a saia que ela usava, tirou a calcinha feia e lambeu o sexo de Ana. Rapidamente, o suficiente para deixa-la louca de desejo. Cleber apertava sua carne, enfiava os dedos em Ana. Deixou a mulher molhada de tantos toques. Chupava os dedos com o gosto dela. Abria a boca de Ana e enfiava a língua. Seus movimentos eram lascivos, sensuais, parecia ter fome dela. 
Ana abaixou em frente a ele e abriu a calça que ele ainda usava. Cleber sentou na mesinha, derrubou o vinho no chão, mas não se importou. Ana tirou o pau dele de dentro das calças.  Estava completamente entregue. 
Ana abocanhou o pau de Cleber, sentindo ele duro pulsando em sua garganta. Chupou, lambeu e agarrou com força. Ele puxava o cabelo dela para ajudar no movimento. Cleber avisou que ia gozar e Ana não se afastou. Deixou ele encher sua boca de porra. Engoliu tudo. Ele a beijou na boca e sentiu seu pau endurecendo novamente. Jogou Ana de barriga na mesa e abriu as pernas dela. Enfiou seu pau com força. Comeu a mulher puxando seu cabelo, arranhando suas costas. Ela sentia o pau dele rasgando suas entranhas. Continuaram a foda assim, com força e loucura.
Quando finalmente se satisfizeram, Ana levantou da mesa, vestiu a roupa e beijou Cleber. Ele ofereceu mais uma taça de vinho. Ela não quis. Ele então serviu água e ambos riram muito da sujeira que fizeram na loja. 
Ana Cristina e Cleber arrumaram toda a bagunça. Ele se prontificou a levá-la em casa, mas ela recusou. Despediram-se na porta da loja com a promessa de se verem em breve.
Dois ou três dias se passaram e Ana não teve tempo de voltar à loja.
Naquela tarde resolveu passar para ver Cleber.
Entrou, sentou-se no lugar de sempre.
Ele veio em sua direção carregando um sorriso ainda mais lindo do que ela lembrava.
– Menina linda, uma torta de morango é pouco para sua beleza, disse ele.
– Ah, que elegante. Obrigada moço bonito, sorria ela.
Ele entregou um café e a torta de morango e voltou para o caixa. 
Ana saboreou o lanche e estava de saída quando ele disse:
–Ei, você não vai me deixar aqui sozinho hoje, não é?
– Hum, por quê? 
– Porque eu preciso te ver mais tarde. Você aceita me visitar lá pelas nove da noite? Eu deixo um vinho gelando.
Ana Cristina riu, e aceitou. 
– Claro, eu volto.
Às nove da noite Ana batia na porta da confeitaria.
O homem lá dentro esperava com todas as luzes apagadas. Abriu a porta em silêncio, pegou Ana pela mão e a levou para os fundos da loja. Lá havia uma porta que dava para um apartamento que ficava conjugado a loja.
– Eu moro aqui. Vem conhecer meu quarto, explicou ele.
Assim foram caminhando pela casa no escuro, chegaram ao quarto dele. A cama era de casal, iluminada por um abajour avermelhado. O ambiente havia sido preparado para esperá-la.
Ana sentou-se na beira da cama. Ele beijou sua boca. Suavemente. Fazia carícias delicadas em seu corpo. Beijou seus mamilos, deu pequenas mordidas. Encarava Ana nos olhos. Estava tão amável, romântico, doce. Tiraram a roupa e ficaram se tocando, se olhando, se sentindo. Ele cheirou o corpo de Ana e deitou-se na cama com ela. Subiu nela e enfiou seu pau no corpo da mulher que esperava por ele. Possuiu Ana devagar, enfiando e tirando com nenhuma pressa. Ana rebolava embaixo dele. 
Ele virou Ana de bruços, mandou que ela ficasse de quatro pra ele. Ela obedeceu. Ele lambeu sua boceta. Ana gemia. Ele entrou nela novamente rasgando aos poucos a carne que pulsava em seu pau. O movimento era lento, mas gostoso. Gozaram os dois assim.
Beijaram-se e ela adormeceu. Acordou assustada no meio da noite. Estava sozinha no quarto. Pegou sua roupa e foi devagar de volta pelo corredor escuro. Passou pela cozinha e lá viu o impossível: havia dois Cleberes lá dentro. Ela demorou a entender. Eram os irmãos, gêmeos. Eram iguais. Pouca coisa se percebia de diferença. Ouviu um pouco da conversa: 
– Cleber, como você vai se apaixonar por ela? Ela nem percebeu a diferença! 
– Hebert, deixa de ser idiota. Ela pensou que estava comigo. E deixa de ser machista sem-vergonha. 
– Vadia sim, foi só dizer que ela era linda que caiu no meu papo.
– Ela não sabia, seu imbecil. Estava dando bola para mim e não para você. Hebert eu não admito que você faça isso novamente.
O irmão ria. Cleber estava exasperado porque realmente havia gostado de Ana. 
Ela manteve o silêncio e foi embora tentando entender o que havia acontecido.
– Filho da puta, eu pensei que fosse Cleber nas duas vezes. Maldizia Ana quase chorando.
Foi para casa. Não conseguiu dormir. Apesar de achar uma sacanagem os gêmeos terem a dividido, ela gostou. 
E gostou tanto do Cleber selvagem e honesto quanto do Hebert romântico e cafajeste.
No outro dia Ana chegou calada. Sentou em uma mesa diferente e não olhou para Cleber que estava no caixa.
Pediu apenas água e lia uma revista sem levantar os olhos.
Cleber se aproximou.
– Adorei ontem, mentiu ele.
– Aham, eu também, falou ela indiferente.
– Vamos repetir hoje?
Ana não respondeu. Olhou para os lados, levantou e disse:
– Às nove?
Ele apenas balançou a cabeça e sorriu.
Ela saiu sem pagar a água.
Nove em ponto ela estava lá. Linda como nunca. Usava um vestido vermelho curto que deixava suas pernas à vista.  Cleber a esperava ansioso.
Ana entrou e ele logo a puxou para si, beijou sua boca com desejo. Apertava Ana, queria rasgar a roupa dela, mas apenas levantou o vestido e viu que ela usava uma calcinha vermelha sexy, provocante. Bem diferente da calcinha feia do outro dia. Cleber sentou Ana na cadeira e se ajoelhou na sua frente, abriu as pernas dela e caiu de boca no sexo da mulher que cheirava a almíscar. Enterrou a língua no clitóris dela, e sentiu cada pulsação de prazer que Ana revelava. 
Ela levantou e estava pronta pra ele. Virou de costas e ele enfiou o pau naquela boceta molhada enquanto apertava os seios de Ana. Os movimentos eram rápidos, seguros, fortes. Ele tirou o pau de dentro dela e gozou nas costas de Ana. Espalhou seu sêmen pela bunda, sujou a mulher com o gozo dele. Mas Ana queria mais. Puxou ele para si e mandou que batesse nela. Ele levou um susto!
Bateu suavemente no rosto de Ana. Mas ela pediu mais força, pediu para ser machucada.
– Me bate como homem. Me machuca. Me chama de puta. Dizia Ana quase histérica. 
Cleber ficou aturdido. Não entendeu aquela reação de sua doce Ana. Mas entrou no jogo e machucou a mulher. Ele gostava desse sexo selvagem. Bateu como ela pediu, e novamente a virou de costas e a comeu com força. Ana queria tomar no cu. E ele obedeceu. Currou a mulher que gritava enlouquecida de prazer. 
Quando enfim terminaram, Ana lançou um olhar misterioso para Cleber, como se soubesse de toda armação. Se despediram e ela foi embora deixando para trás um intenso perfume que Cleber nunca antes tinha sentido.
Ana apareceu novamente durante a tarde. Cleber não estava no caixa. Era Hebert que estava por lá. Sem o menor escrúpulo foi falar com ela:
– Quero mais você.
– Ah é? De vestido vermelho?
Hebert não sabia o que responder, mas fez que sim com a cabeça
– Hoje então. Nove horas, disse ela com um sorriso meio de lado.
Hebert ficou exultante. Ia comer novamente a namoradinha do irmão. 
Nove horas Ana batia na porta. Novamente usava o vestido vermelho. Hebert abriu a porta e beijou-lhe a mão.
Era um verdadeiro gentleman. Ansioso por começar logo a sessão de sexo com Ana, não percebeu a presença do irmão na sombra.
Ficaram ali se beijando até que Cleber acendeu as luzes.
Ana levou um susto. Hebert também.
– O que você está fazendo, cara? Perguntou Hebert.
– Cala a boca, disse Cleber. Virou para ela e disse:
– Ana Cristina, me perdoa. Meu irmão gêmeo te enganou, mas não foi ideia minha.
Ana sorriu.
– Ana Cristina? Não. Essa é minha irmã gêmea. Muito prazer, sou Ana Carolina. FIM

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

O HOMEM QUE DESVIAVA


Alexandre era um cara responsável. Pai de Rafael, marido de Julia, filho único de dona Selma. Estava sempre disposto a ajudar. Tinha habilidade em consertar carros, luminárias e amizades. Era ele quem acalmava os nervos da galera quando a discussão esquentava. Ele que trocava as lâmpadas queimadas da casa da mãe viúva. Ele que levava o sogro ao médico. Ele que nas horas vagas distribuía ração para cães abandonados.
Alex, apelido obrigatório, não tinha muitas reclamações sobre a vida. Se dedicava de corpo e alma a fazer o bem. Mais corpo que alma. Alex estava bem acima do peso, mas nem isso tirava seu sono. Bonachão e boa praça. Sabe o tipo? Então, assim era.
Trabalhava em uma imobiliária no centro da cidade. Cidade quente, sem chuva, sem sombras, tomada pelo asfalto. Ia cedo para o serviço. Perdia mais tempo caçando vaga para deixar o carro que rodando pelo caminho. Ele morava pouquíssimos quilômetros da firma, mas a gordura de seu corpo era desculpa para não encarar uma caminhada.
Chegava ao escritório arfando. Dia sim, e no outro também, o elevador estragava e Alex encarava três andares como quem vê os portais do inferno. Vermelho, suando e sem dignidade alguma, entrava na sala, se jogava em sua cadeira e dava início ao dia de multitarefas.
Funcionário exemplar, além de ser responsável por várias contas de aluguel e cobrança de condomínios, tomou para si a obrigação de descer até a lanchonete da esquina para comprar diariamente as guloseimas do escritório. Valia tudo na hora do lanche. De pastel a picolé. E Alex era criativo, nunca repetia o petisco.
Em sua simplicidade, se dizia um homem completo.
– Pra que eu quero mais? Tenho uma mulher linda, um filho cheio de saúde e inteligência, uma casa com piscina e uma sogra que já já bate as botas, ria Alex até engasgar durante o discurso no cafezinho, quando os colegas agradeciam as gentilezas do gordo simpático.
Apesar de todas as alegrias que a vida pode proporcionar a um bom pai e cidadão exemplar, Alex se incomodava com uma coisa: ele era um cara que desviava.
É exatamente isso. Mesmo com todo aquele tamanho, Alex precisava andar sempre, ou quase sempre, em zigue-zague. As pessoas simplesmente não desviavam dele . Se estava subindo a escada escorado no corrimão para se equilibrar e manter o fôlego, lá vinha uma horda descendo os degraus que simplesmente não saia da frente e o obrigava a soltar o corrimão e deixar todo mundo passar. 
Se andava pela rua, quem quer que viesse em sua direção, ia reto, não desviava. Alex se obrigava a dar um passo para o lado.
Era um problema. Pra muita gente, uma bobagem, para Alex, um problemão.
Qualquer duzentos metros de caminhada se transformavam automaticamente em dois quilômetros de tanto que ele desviava das pessoas.
Quando tentava não desviar era de praxe levar esbarrão. E com ele sempre um puxão de orelha:
– Ei, olha por onde anda...
Isso sem contar as diversas vezes que iam lanche, sucos, cafés e respeito para o chão. Tudo porque ele não desviou.
Outro dia, andando apressado pela calçada, não desviou de uma senhora distraída e a mulher bateu com toda força em seu peito. E ainda xingou muito Alex. O homem ficou sem palavras. Não pediu desculpas porque afinal não era culpa dele. Ficou parado olhando a mulher indo embora e para sua surpresa, a tal senhora seguiu caminho desviando de tudo e todos. Naquele momento Alex se perguntou quase em voz alta: por que sempre eu que tenho que sair da frente?
Aproveitou o intervalo do almoço para observar o trânsito, os pedestres, o movimento das ruas. Dividiu a humanidade em dois tipos: os que desviam e os que não desviam. Passou a admirar os que não desviam. Mostravam mais confiança, elegância, força e determinação. Enquanto os outros que saiam da frente geralmente andavam de cabeça baixa, quase cansados. Disposto a fazer parte do mundo dos fortes, bradou a si mesmo:
– A partir de hoje não vou desviar. Venha o que vier, seja quem for, eu não desvio.
Fez o sinal da cruz para garantir a seriedade do juramento.
Manteve a rotina de ir de carro ao trabalho, achou vaga perto da entrada. Ninguém passou por ele. Surpreendentemente o elevador estava funcionando. Desceu no andar do escritório, foi até sua mesa, e nada de precisar desviar.  O dia começava bem.
Hora do lanche, Alex se preparou para ir até a esquina pegar as coxinhas de galinha tradicionais da quinta-feira. Confiante, desceu pelo elevador, atravessou a porta grande do prédio e nem viu que a rua estava praticamente vazia.
Feliz em não precisar desviar de ninguém, Alex caminhou tranquilamente. Nem percebeu que o local estava cercado pela polícia. Naquele momento, bandidos estavam fugindo de um assalto a um banco ali próximo. O centro da cidade estava nervoso. Policiais do esquadrão antibomba gritavam para todos se afastarem, a rua fora interditada, polícia de um lado, ladrões de outro. Sirenes, confusão.
Quando se deu conta do que acontecia Alex saiu correndo, nessa hora começou o tiroteio.
Alex dobrou a esquina para o lado errado e acabou de cara com os bandidos. Ficou paralisado. Sem mexer um músculo, apenas ouvia os gritos dos assaltantes encurralados.  
A primeira reação foi pedir “peloamordedeus” que o deixassem ir, mas Alex lembrou que agora ele era forte, destemido, um homem que não desviava de nada. Não cederia um passo, um centímetro para o lado.
Não teve medo. Manteve o juramento: morreu com uma bala na cabeça porque não saiu da frente.

FIM 

domingo, 20 de outubro de 2013

BRINCANDO NO MAUSOLÉU


Ele fazia quase todos os dias o mesmo caminho. Uma trilha que cortava ao meio o matagal fechado. Estrada improvisada construída pelo tempo e por muitos que precisavam chegar ao cemitério.
A caminhada começava cedo. Antenor acordava de madrugada, com os galos cantando, como se diz. Tomava um café ralo, vestia a roupa limpa, encaixava o chapéu na cabeça grisalha e ia para o serviço. Embaixo do braço a marmita preparada na noite anterior. Era o almoço e muitas vezes a única refeição do dia. 
Antenor era viúvo. Pai de dois filhos que a morte insistiu em levar antes do tempo. Semianalfabeto, com as desgraças da vida, acabou contratado como coveiro da cidade.
Encarava a morte com despeito. Para ele – ela, a morte – era apenas uma dama exibida que ganhava créditos pelo que não era. Tratava a “dama” como inevitável e natural. Nada de mais. Nem de menos.
Não tinha religião. Andou metido em uns rituais de macumba mas achou demais para ele. Foi criado contrário aquilo tudo. Uma mãe rígida e pobre  levava a religião muito a sério e carregava o filho para os cultos no fim de semana. Depois da morte da mãe, Antenor se separou da igreja.
– Tudo a mesma merda, dizia cuspindo em seguida, enquanto fumava o tradicional cigarro de palha.
A rotina de Antenor era simples: acordar cedo, ir pela estrada mal- acabada, abrir os portões do cemitério e esperar. Esperar a morte chegar. A morte dos outros, porque a dele ele fazia questão de nem ligar. Se houvesse almoço, almoçava; se houvesse café, bebia. Ia vivendo os dias entre as lápides.
Os gatos eram sua única companhia. Eles tomavam conta dos túmulos, sombras e jazigos. Ficavam ali, entre as sepulturas, à espreita de não sei o quê. Lambendo o pelo e dormindo. Durante à noite eles acordavam.
Se houvesse enterro no dia, Antenor abria a cova e esperava com serenidade pelo defunto e a comitiva do velório.
Observava de longe. Nunca chorava à beira do caixão. Muitas vezes derramava lágrimas disfarçadas porque conhecia o morto. A cidade era pequena, não eram tantos, era fácil saber quem era quem.
Depois do enterro, Antenor repassava seus sentimentos à família, se retirava para o banho no chuveiro, que ficava atrás da sala da administração, e trocava a roupa. Comia o que sobrava da cerimônia fúnebre e se aprumava para ir embora.
Antes de trancar os portões do cemitério, fazia uma pequena ronda. Ao final, deixava comida e água para seus gatos. E pegava o rumo de casa. Morava num casebre simples e modesto pouco antes do fim da trilha.
Antenor percorria o caminho de volta entre insetos, escuridão e silêncio. A lua servia de iluminação. E apenas ela. Quando não havia lua, Antenor ia guiado pela experiência.
Aquele tinha tudo para ser um dia comum. Manteria a rotina. E assim fez:  Antenor chegou ao cemitério e foi logo avisado de que teria enterro naquela tarde.
Saiu para fazer a ronda da manhã quando percebeu que uma lápide estava fora do lugar.
– Mas que diabo é isso? Se eu pego quem fiz essa arte, eu mato. E enterro aqui mesmo. Que merda! Falava Antenor aos seus fantasmas.
Arregaçou as mangas e foi colocar a lápide no lugar. O problema que a tal pedra era pesada demais para um homem só. Ficava em um mausoléu de uma família muito antiga, os famosos e temidos Bragança. Famosos por serem ricos e fundadores da cidade. Temidos por serem cruéis e sem escrúpulos com os escravos. Antenor insistiu, mas não conseguiu arrumar a bagunça.
Deixou pra lá. Ninguém além dele ficaria sabendo, já que nenhuma pessoa visitava aquela família.
Antenor foi cavar a cova para o novo morador. Na ala mais recente, onde não há mais mausoléus nem grandes estátuas.
Fez o buraco e esperou.
O morto chegou. Antenor foi arrebatado por uma tristeza infinita.
O corpo era de uma menina. Uma criança de no máximo dez anos. Cabelos presos em trança. Vestido engomado. Lábios avermelhados. Parecia dormir.
“É a Ana, filha da dona Elizete”, pensou. “Valha-me nossa senhora, era uma menina tão boazinha”. Naquele momento esqueceu a falta de religião e fez o sinal da cruz.
Antenor enxugava o pranto com a luva suja de terra.
Quando finalmente fechou o túmulo de Ana, não tinha mais lágrimas a derramar.
A família da menina foi embora consolando uma mãe inconsolável. Eram poucos os amigos e parentes, mas suficientes para tentar aplacar a dor daquela mulher.
Antenor observou os carros indo embora. Não conseguiu comer as sobras do velório. Guardou tudo para os felinos. Pensou em entregar aos gatos, mas naquele início de noite eles estavam desparecidos. Abandonaram sem pudor todos os postos de vigilância.
Antenor chamou, chamou e nada. Nem um miado.
Resolveu dar uma caminhada pelos corredores do cemitério para ver se achava a gataria.
Entrou na ala dos esquecidos. Eram corpos emparedados e empilhados sem nome na lápide. Ninguém os queria, nem quando vivos, muito menos depois da morte.
Nada de gatos. Enquanto se dirigia para o final do corredor sentiu que atrás dele havia alguém. Virou-se rapidamente e pode ver de relance uma sombra que deixava o local. Como se alguém corresse para se esconder.
– Ei, quem ‘tá ai? Gritou Antenor. Nenhuma resposta. Pensou em voltar até lá, mas desistiu. Estava perto demais do final do corredor e precisava achar os gatos com rapidez, a noite já estava avançando e não havia lua suficiente para ele voltar pela trilha.
Apurou a audição e ouviu ao longe o som do que parecia ser um grito. Foi em direção a ele e lá estavam todos. Como reunidos numa cerimônia, os gatos estavam em volta da lápide mal acomodada do mausoléu dos Bragança.
– Arre, só que me faltava, primeiro a brincadeira com a pedra, agora esses bichos malditos, falava em voz alta para ele mesmo.
Foi em direção aos bichanos e eles nem notaram a sua presença. Antenor precisou gritar para que saíssem de uma espécie de transe.
Mexerem-se com uma lentidão enervante. Caminhavam como se donos da terra.
Antenor virou as costas e mais uma vez teve a certeza de ver uma sombra, dessa vez bem à sua frente. Na verdade duas sombras, que foram sumindo sem pressa. Antenor piscou bem os olhos, não estava acreditando no que via. Precisava sair dali.
Foi correndo em direção à administração. Pegou a marmita vazia, a chave dos portões e colocou-se depressa na trilha que o levaria até em casa.
Na estrada, apressou o passo. Sentiu aquela sensação quando se está sozinho e parece que tem alguém atrás da gente. Apressou tanto o passo que estava correndo quando avistou sua casa. Entrou sem limpar os pés. Fechou a porta com força. Dentro de casa, encostou as costas na porta e pode sentir uma batida estrondosa, como se a sombra que o seguia batesse nela.
Antenor se assustou. Acendeu as luzes da casa e esperou. Não houve mais nada. Nem barulho, nem batida, nem sombras. Nada. Apenas o silêncio da escuridão.
Não conseguiu dormir naquela noite. Foi assombrado pelos pensamentos e lembranças dos fatos da tarde.
No outro dia pela manhã, o sol mal apareceu no horizonte e Antenor se preparava para o trabalho.
Foi para o cemitério sem marmita, sem descanso e com medo.
Abriu os grandes portões. Não haveria enterro. O dia prometia ser calmo.
Pôde observar os gatos dormindo, nos postos de vigília, languidamente esperando o tempo passar.
Foi ver como estava a lápide no mausoléu violado. Chegando lá a surpresa maior foi que tudo estava normal.
Entrou sorrateiro, andou em volta e nada estava diferente. A lápide mexida estava de volta ao lugar.
Saiu do mausoléu e caminhou entre os corredores do cemitério. Meio sem rumo. Passou pela cova de Ana e ali sim, algo havia mudado.
As flores estavam surpreendentemente murchas e a lápide rachada. Ana Maria Bragança era o nome completo da menina.
Antenor não conhecia muito bem as letras, demorou a perceber a semelhança. – Bragança, Bragança,  eu já vi isso antes, disse para si.
Saiu correndo pelo cemitério a procura do nome. Acabou novamente  em frente ao mausoléu violado. Entrou e se deparou com o mesmo nome na lápide remexida: Ana Maria Bragança – a data da morte era 1734.
Nesse momento as portas do mausoléu fecharam com força. Antenor estava preso. Pode ouvir todos os gatos se aproximando da construção. Suava frio e tentou abrir a porta. Estava emperrada.
Sentia calafrios. Forçou a saída e nada. Lá fora os gatos reunidos faziam um barulho ensurdecedor. O sol que iluminava o ambiente por entre as vidraças simplesmente desapareceu. Ele foi tomado pela escuridão. Afastou-se da porta e começou a gritar pedindo socorro.

Os tocos de vela espalhados pelo chão serviram de ajuda. Antenor sacou o fósforo que carregava na calça, deixou os cigarros caírem do bolso. Com um risco certeiro, iluminou o ambiente. Nessa hora as duas sombras que anteriormente ele teve a impressão de ter visto se formaram na parede oposta a ele.
Antenor olhou para as sombras e viu nitidamente que duas meninas estavam à sua frente.
Eram mesmo duas crianças. Exalavam tanto terror que Antenor começou a chorar. Foi se agachando de medo. Pedia por favor, para que as meninas nada fizessem. Fechou os olhos. Podia ouvir a risada sinistra das garotinhas.
Ao abrir os olhos viu que as duas meninas haviam se aproximado. Estavam há pouco mais de um metro dele. Ele implorou pelo amor de Deus para elas deixarem ele ir embora.
Fechou os olhos novamente e ao abrir, as duas meninas estavam em cima dele. Riam em sua cara. Ele pode sentir o bafo de podridão que saia da boca desdentada de uma delas.
– Vem brincar com a gente, convidavam as meninas. 
Mais risadinhas assustadoras. Antenor estava apavorado. O coração batia descompensadamente.
As crianças colocaram as mãos no ombro do coveiro. Ele gritou. O medo assolou o corpo daquele homem e um silêncio grotesco tomou conta do lugar. Os gatos saíram correndo. A noite chegou.
Dois dias se passaram. A administração tentou avisar que haveria enterro naquela tarde, mas foi impossível. O enterro seria do próprio coveiro. Antenor foi encontrado morto. Congelado numa expressão de loucura e medo. Um novo funcionário foi contratado.
O que ninguém sabia é que Ana era a última descendente dos Bragança. Era tataraneta ilegítima do poderoso fundador da cidade. Resultado de um caso extraconjugal com uma escrava. Elizete, a mãe da última Ana Bragança, não fazia ideia do prestigio que poderia ganhar, nem da fortuna que poderia acumular sendo a última descendente da família.  
A outra Ana, menina do século XVI, morrera prematuramente vítima de uma tuberculose. Era uma criança quieta, sem graça, doente e solitária. A Ana de hoje seguia o mesmo destino, isolada, tímida e fraca, teve uma vida miserável. As duas finalmente se encontraram e seguiram pela estrada improvisada da vida. Com as almas perdidas foram em busca da alegria de viver e fizeram de Antenor um brinquedo fácil. Planejavam sair dali. O próximo passo seria deixar o mausoléu e o cemitério e ir brincar nas ruas da cidade. 


FIM